Ciganos vítimas de pirâmide financeira que deixou prejuízo milionário cobram punição aos culpados
Prejuízo teria sido superior a R$ 600 milhões em dinheiro e joias. Em dezembro, um dos supostos envolvidos foi preso em Cantagalo, mas está liberdade sendo monitorado com tornozeleira eletrônica

Cantagalo (PR) – Quase três mil vítimas de um golpe de pirâmide financeira, que teria deixado mais de R$ 600 milhões de prejuízos, pedem que os responsáveis pelo suposto esquema sejam responsabilizados pelo crime e punidos. A maioria das vítimas é de São Paulo, mas famílias inteiras perderam dinheiro em outros estados.
São famílias que pertencem a comunidades ciganas de diferentes regiões do Brasil e até do Paraguai, Venezuela e Argentina, entre outros países. O esquema ficou conhecido como “golpe de ouro” e teria na liderança Oscar Gaich, conhecido como Yoska, e seu filho Oscar Gaich Filho, o Tato, mas há outras pessoas supostamente envolvidas na liderança do esquema, entre elas Jorge Nicolete Filho, que antes de se envolver com a pirâmide e se tornar um dos líderes do esquema, era um cigano respeitado. Esse respeito por parte da comunidade cigana fez com que os demais não percebessem que se tratava de um golpe e acreditassem que teriam lucros acima do que é praticado no mercado financeiro.

Em dezembro, Nicolete foi preso em Cantagalo, no Paraná, após atropelar outros ciganos que estavam atrás dele para pedir explicações sobre os investimentos. O encontro entre as vítimas e o acusado em um hotel da cidade foi por acaso. Nicolete foi preso em Cantagalo junto com a esposa. Ele ficou preso por um período na cadeia pública de Guarapuava, mas conseguiu a liberdade e foi liberado com uso de tornozeleira eletrônica.
Para não ser reconhecido pelos demais ciganos, ele havia mudado o visual e raspado a cabeça, mas mesmo assim acabou descoberto. No carro do casal foram encontrados R$ 137 mil em espécie, quatro cartões de crédito, três celulares, uma arma, munição e 687 gramas de ouro.
A comunidade cigana quer a punição dos culpados, principalmente de Nicolette, que foi solto recentemente. Eles temem que ele possa fugir sem responder aos crimes.
Cigano respeitado
O Portal Cantagalo conversou com Dora Giovana, uma das vítimas que teve prejuízo de R$ 200 mil. Ela conta que Nicolete era respeitado na colônia cigana, inclusive era evangélico e carinhosamente chamado de “Pequininho”. Inicialmente, ele ofereceu à colônia cigana os investimentos que trariam retorno rápido. Contou a história de que havia um árabe que compraria o ouro para levar a Dubai.
Dora conta que foi entregue para Nicolette ouro e joias que estavam com as famílias havia muitas gerações. O suposto golpista dizia que em uma joia de R$ 50 mil, o investidor árabe pagaria o dobro.
“Nós, da comunidade cigana, confiamos no Jorge Nicolete por ele ser um cigano respeitado pela nossa colônia e confiamos nele. Não sabíamos que se tratava de uma pirâmide e sim de uma ajuda. O Jorge Nicolete dizia que queria ajudar a nossa família, a nossa comunidade cigana. Ele, junto com os filhos e com outros integrantes, arrecadaram R$ 600 milhões em espécie de dinheiro e joias. Eles fugiram”, conta.
Dora Giovana perdeu R$ 200 mil, mas seus filhos, juntos, perderam outros R$ 800 mil. A investigação da polícia paulista aponta que Pablo Nicolete, filho de Jorge, é um dos cabeças do esquema. Dora conta que Pablo é casado com sua sobrinha.
“Por nós conhecê-los confiamos neles, não só eu, mas toda a nossa comunidade cigana. Queremos justiça, pedimos às autoridades do Paraná que prendam Jorge Nicolette e os filhos dele”, afirma.
A família de Paloma Stanesco também perdeu muito dinheiro com o golpe. “Eu e minha família perdemos 800 mil reais. Caímos na conversa do Pablo Marcelo Nicolete e do Jorge filho Nicolete, eles eram compadre do meu pai Shoio”, conta Paloma, que também pertence à comunidade cigana.
Desespero e mortes
As vítimas do esquema passaram por momentos delicados após perderem economias feitas durante longos anos. Há registros de suicídios e mortes por infarto, sendo a mais recente no domingo (4), em Brasília. A vítima, que investiu R$ 30 mil no esquema, teve um infarto e foi a óbito. Também houve casos de pessoas que, depois de perder dinheiro, fizeram empréstimos com agiotas e isso resultou em morte, além de inúmeros casos de depressão.
Defesa

Para impetrar um habeas corpus no Tribunal de Justiça do Paraná, Jorge Nicolete contratou o renomado advogado criminalista Claudio Dalledone Junior e a equipe do seu escritório. Dalledone é conhecido por casos famosos no Paraná e no Brasil.
Ele defendeu o goleiro Bruno, acusado da morte de Eliza Samúdio. Ele também fez a defesa do agropecuarista Alessandro Meneghel, acusado de matar um policial federal em uma casa noturna de Cascavel, no Oeste do Paraná. Outra defesa de repercussão foi a de ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, do Rio de Janeiro, conhecido como Dr. Jairinho e réu no processo que ficou conhecido como caso Henry Borel, enteado do ex-vereador e que teria sido morto de forma violenta pelo padrasto.
Dalledone é considerado um dos advogados criminalistas mais caros do Brasil. Segundo matéria produzida pelo jornal O Globo, em média, suas causas custam entre R$ 2 e 3 milhões. Mas ele também trabalha gratuitamente, dependendo do poder aquisitivo do cliente e da projeção do caso na mídia.
O Portal Cantagalo entrou em contato, por e-mail, com o escritório de Dalledone, mas até o fechamento desta reportagem ainda não havia recebido resposta. A reportagem não conseguiu falar com a defesa de Oscar Gaich.
Audiência e manifestação
A audiência de instrução e julgamento de Nicolete está marcado para o dia 25 de abril, às 14h30, no fórum da Comarca de Cantagalo. A audiência será no modelo semipresencial.
Ciganos de todo o Brasil prometem chegar a Cantagalo na data da audiência para uma manifestação em frente ao fórum. Eles buscam pressionar a Justiça e mostrar que há um clamor popular das famílias que estão desesperadas.
