Argentinos prestam homenagem ao papa na maior favela de Buenos Aires

Comunidade da Vila 21-24, em Buenos Aires, se reúne para lembrar a trajetória de Francisco, o papa que iniciou sua missão pastoral entre os pobres e marginalizados da capital argentina.
Na Vila 21-24, a maior favela de Buenos Aires, não houve silêncio nesta despedida. Ao contrário: foram as palmas, as orações em guarani, o chimarrão partilhado e os olhos marejados que marcaram a homenagem mais sincera ao homem que um dia caminhou ali como simples padre e que o mundo conheceria como Papa Francisco.
Sebastián Morales, hoje com 37 anos, entrega santinhos como quem compartilha milagres. Foi aqui, entre as vielas marcadas pela exclusão, que ele conheceu Mario Jorge Bergoglio, um sacerdote de fala mansa e passos lentos, mas firmes. “Ele me enxergou quando ninguém mais via. Eu era só mais um drogado na rua. E ele se sentou comigo, me ouviu, me benzeu, me devolveu a fé”, lembra Sebastián, agora morador do Lar de Cristo, abrigo fundado por Bergoglio para aqueles a quem o sistema insistia em descartar.
A paróquia Nossa Senhora de Caacupé, símbolo da fé dos imigrantes paraguaios que compõem boa parte da comunidade da Vila 21, se tornou o epicentro de uma comoção popular que tem menos de luto e mais de missão: “Representar o legado do papa dos pobres”, como define o padre Lorenzo “Toto” de Vedia, amigo pessoal de Francisco e expoente do movimento Curas Villeros, os padres que vivem e atuam nas favelas argentinas.
Francisco: a revolução que começou pelo olhar
Foi em 1997, ao ser nomeado arcebispo de Buenos Aires, que Bergoglio se aproximou dos Curas Villeros e deu novo fôlego à pastoral nas periferias. Recusava pompas. Andava de ônibus, batia às portas das casas, bebia chimarrão em copo de plástico com os moradores. “Ele perguntava o que a gente precisava e dava um jeito. Esse amigo de todos virou papa”, diz o padre Toto, com os olhos marejados.
Ao assumir o papado em 2013, Bergoglio levou para Roma uma teologia nascida do chão da favela. “Uma Igreja pobre para os pobres” não era apenas retórica — era vivência. Seu papado abriu portas a excluídos, falou aos abandonados, enfrentou o conservadorismo clerical e estendeu a mão a populações LGBTQIA+, migrantes e mulheres.
Do bairro de Flores ao mundo
A história de Francisco começa num lugar modesto: bairro de Flores, onde ainda se preserva a casa da família Bergoglio e a praça onde “o pequeno Jorge corria atrás da bola”, como descreve uma placa instalada por vizinhos. Na Basílica São José de Flores, onde aos 17 anos sentiu o chamado ao sacerdócio, fieis como María Villagra, 74, choram em silêncio. “Ele vai ser santo. Eu sei. E todos os dias estarei aqui, até quando Deus permitir.”
A adolescente Olivia Anun Castro, 14, caminhou da escola até a Basílica para prestar sua homenagem. “Ele abriu a Igreja para os gays. Ele era bom. Esperávamos sua volta, mas agora ele está com Deus”, diz, com uma maturidade que denuncia o quanto esse papa dialogava com todas as gerações.
O papa que não voltou
Francisco sempre quis regressar à Argentina, mas a política polarizada e os jogos de interesse travaram o reencontro. “Não quero sair de Buenos Aires. Fora daqui, não sirvo para nada”, dizia antes de embarcar para Roma. Ironicamente, jamais voltou.
Mas hoje, quem caminha pelas vielas da favela 21-24, pelos corredores da Basílica de Flores ou mesmo pelas praças onde jogava bola, entende que ele nunca saiu de fato. Seu legado permanece tatuado nas mãos calejadas dos padres das favelas, na coragem dos jovens que estudam graças à sua benção, e na fé de um povo que agora carrega a missão de continuar a obra de um homem que, como ele mesmo dizia, “sabia que ninguém se salva sozinho”.