Jornalista compra dente de dinossauro pela internet e investiga veracidade

De fósseis baratos vendidos em redes sociais a leilões milionários, comércio levanta polêmica sobre autenticidade e legalidade
Comprar um dente de dinossauro online parecia apenas a realização de um sonho de infância para um jornalista estrangeiro. Mas a experiência revelou um universo obscuro e polêmico: o comércio global de fósseis, que mistura ciência, mercado milionário, especulação e ilegalidade.
O repórter desembolsou cerca de 100 dólares (R$ 540) por um suposto dente de Espinossauro, um predador semiaquático que viveu há 95 milhões de anos. O item chegou em uma redoma de vidro, acompanhado de certificado de autenticidade. Apesar da aparência convincente, as rachaduras no material levantaram suspeitas. Para confirmar, ele levou o objeto ao Museu de História Natural de Londres, onde especialistas confirmaram que se tratava de um fóssil verdadeiro.
A descoberta, no entanto, trouxe outro choque: segundo os paleontólogos, o dente provavelmente foi escavado e exportado ilegalmente do Marrocos, país onde a exploração e venda de fósseis sem licença são proibidas. “Este espécime… você o tem ilegalmente”, disse a pesquisadora Susannah Maidment.
Um mercado milionário
O caso individual reflete um fenômeno crescente. Leilões milionários nos Estados Unidos e na Europa transformaram fósseis em artigos de luxo e investimento. Em 2020, por exemplo, um T. rex apelidado de “Stan” foi vendido por US$ 31,8 milhões. No ano passado, um Estegossauro foi arrematado por quase US$ 45 milhões.
Ao mesmo tempo, plataformas como Instagram viraram vitrines para fósseis de menor valor, muitos provenientes de escavações informais e contrabando. No Marrocos, estima-se que o comércio de fósseis movimente até US$ 40 milhões por ano, sustentando milhares de trabalhadores em condições precárias.
Legal ou ilegal?
A legislação varia de país para país. No Brasil, por exemplo, fósseis pertencem à União desde 1942, o que torna sua venda proibida. Já nos Estados Unidos e Reino Unido, proprietários de terras podem vender livremente o que encontrarem em seus terrenos. No Marrocos, embora exista legislação, muitos itens acabam no mercado negro e circulam globalmente.
Especialistas alertam que, além da questão legal, o comércio indiscriminado pode prejudicar a ciência, já que fósseis valiosos desaparecem em coleções privadas sem estudo adequado. Ainda assim, parte dos paleontólogos considera que a venda de itens mais comuns, como dentes isolados, não representa ameaça significativa.
O jornalista concluiu que, embora tivesse um pedaço autêntico da história da Terra em mãos, carregava também um objeto marcado por dilemas legais, éticos e científicos. “É algo que pertence a todos nós, parte do nosso patrimônio. Não deveria ser de propriedade de apenas uma pessoa”, resumiu Maidment.
Com informações do Portal CNN Brasil