Como o mundo se parece aos olhos de uma aranha

Estudo mostra que esses animais têm visão limitada em detalhes, mas enxergam movimentos com extrema precisão e sensibilidade à luz
Imagine uma noite tranquila de outono: você está assistindo televisão quando uma aranha cruza o tapete. Ao notar seu movimento, ela congela e, num piscar de olhos, desaparece. O que ela viu? Será que teve medo?
De acordo com o artigo publicado na plataforma The Conversation Brasil pelo professor Christopher Terrell Nield, da Universidade Nottingham Trent, na Inglaterra, a resposta é mais complexa do que parece. Embora as aranhas possuam oito olhos, a maioria não enxerga detalhes com clareza — seu mundo é formado por vibrações, correntes de ar, toques e cheiros, mais do que por imagens.
Olhos principais e secundários
As aranhas geralmente possuem quatro pares de olhos, divididos em dois tipos: principais e secundários.
Os olhos principais captam detalhes e detectam luz, transformando-a em sinais para o cérebro.
Já os secundários são sensíveis ao movimento, atuando como um sistema de alerta precoce contra predadores ou para detectar presas.

Cerca de metade das 37 famílias de aranhas da Grã-Bretanha tecem teias e dependem mais das vibrações do que da visão para caçar. Outras espécies, como as aranhas-lobo, aranhas-caranguejo e aranhas saltadoras, confiam fortemente nos olhos para capturar suas presas e enxergam muito melhor do que suas parentes tecelãs.
Caçadoras e estrategistas
As aranhas-lobo (Lycosidae) e as aranhas saltadoras (Salticidae) têm olhos principais maiores, capazes de focar em alvos próximos, enquanto os secundários percebem movimentos sutis ao redor. Algumas dessas espécies detectam luz ultravioleta, o que as ajuda tanto na caça quanto em rituais de acasalamento.
Já as aranhas-caranguejo (Thomisidae) são especialistas em emboscadas. Elas se camuflam entre flores e mudam gradualmente de cor, do branco ao amarelo, para se misturar melhor ao ambiente.
As aranhas lançadoras de teia (Deinopidae), conhecidas como “aranhas com cara de ogro”, vivem em florestas tropicais escuras e possuem olhos que captam luz melhor do que gatos ou corujas. Toda noite, produzem uma membrana sensível dentro dos olhos, destruída ao amanhecer por ser excessivamente sensível à luz do dia.
O olhar noturno e a dança do acasalamento

Aranhas-lobo e outras espécies noturnas possuem uma membrana refletora nos olhos, semelhante à de gatos e crocodilos, que melhora a visão em ambientes escuros. Elas também utilizam a visão em rituais de cortejo: os machos executam danças e movimentos sincronizados para atrair as fêmeas, um verdadeiro espetáculo visual no mundo aracnídeo.
As aranhas saltadoras, por sua vez, possuem visão comparável à de pombos e gatos. Elas conseguem identificar cores e formas a longas distâncias e calculam com precisão o momento de saltar sobre suas presas.
Como elas nos veem
As aranhas domésticas, como a Tegenaria domestica, enxergam apenas formas em movimento, não detalhes. Para elas, um ser humano parece uma grande sombra ameaçadora, o que explica o comportamento de congelar ao menor susto. Esse reflexo é um mecanismo de defesa eficaz, também observado em outros animais, que evita chamar a atenção de predadores.
Pesquisas recentes sugerem que insetos podem sentir emoções básicas, como medo e prazer. Isso levanta uma pergunta fascinante: e as aranhas? Se o medo as paralisa, talvez elas tenham mais em comum conosco do que imaginamos.
Com informações do Portal Metrópoles