VARIEDADES

Meu amigo engraxate

Por Luiz Carlos da Cruz

Passava do meio-dia quando me dirigia para o almoço. Atravesso a rua em direção ao restaurante e me deparo com um rapaz negro com uma caixa nas costas.
— Vamos engraxar o sapato — diz ele, soltando a caixa na calçada e sentando sobre ela.
— Não posso, estou apressado — respondo.
— É bem rapidinho, vamos engraxar, preciso de dinheiro para almoçar.

Ao perceber que eu não estava disposto a engraxar o sapato, o rapaz me pede dinheiro para almoçar. Olhei para ele e perguntei se queria almoçar comigo.
— Está falando sério? Você está indo almoçar? Vou sim — diz ele, entusiasmado.

No caminho, ele comenta que eu era preto igual a ele. Esforcei-me para não rir, sem entender exatamente o que ele queria dizer, mas seguimos em frente.
— Não sabia que tinha um restaurante aqui — diz o rapaz, encostando a caixa na parede.

Entramos no restaurante e nos sentamos. Eu pedi o meu almoço e ele pediu um prato semelhante. O rapaz me contou que veio ao Paraná há alguns meses. É natural de Rondônia e às vezes trabalha como ajudante de pedreiro, mas a maior parte do tempo engraxa sapatos para sobreviver. Confesso que há muito tempo não via um engraxate circulando com uma caixa pendurada no ombro. Ele me conta que, com frequência, vai até a Câmara de Vereadores para atender aos clientes. Às vezes também fica no calçadão no Centro da cidade, mas ressalta que prefere trabalhar dentro de órgãos públicos.
— As pessoas andam muito corridas, não têm tempo para engraxar sapatos — afirma ele.

A observação chama minha atenção. De fato, não temos tempo para mais nada, nem para parar e engraxar os sapatos na rua. É bem verdade que quase não existem mais engraxates em vias públicas. O ritmo frenético da vida urbana nos priva de pequenas coisas que podem nos fazer tão bem.

— Como é o seu nome? — pergunto enquanto éramos servidos no restaurante.
— Fábio — responde o rapaz, antes de soltar um vibrante: — Obrigado, meu Deus!

Achei interessante a gratidão dele pelo alimento. O rapaz, de poucas palavras e jeito inquieto, falou pouco sobre si. Contou que mora em uma pensão, que tem parentes no Rio Grande do Sul e que está em busca de trabalho.
— Você é advogado? — pergunta ele.
— Não, sou jornalista — respondo.
— Jornalista de televisão?
— Não, de jornal impresso.

Terminamos o almoço. Enquanto eu me dirigia ao caixa, ele sentou-se em uma cadeira do lado de fora do restaurante e ficou me aguardando. Quando saí, ele insistiu em engraxar meus sapatos como gratidão pelo almoço.
— Fica para outro dia, quando nos encontrarmos de novo, amigo — respondo.

Não imaginava ele que só a sua companhia e nosso curto diálogo, em aproximadamente 25 minutos de almoço, me fizeram um bem e tanto.

Despedi-me do amigo engraxate, e suas últimas palavras ficaram ecoando nos meus ouvidos:
— Que Deus te abençoe.

E que assim seja para todos!

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