OPINIÃO

É preciso falar sobre racismo

Por Luiz Carlos da Cruz

Jornalista

Não é deixando de falar sobre o tema, como defendem alguns que insistem em compartilhar, sempre no dia 21 de março — Dia Internacional de Combate ao Racismo — um antigo vídeo do ator norte-americano Morgan Freeman, minimizando o debate racial, que o racismo deixará de existir. É preciso falar sobre racismo, sim! E com urgência! Não falar sobre racismo não vai fazer o crime desaparecer.

O racismo no Brasil é estrutural e intrínseco. Muitas pessoas são racistas sem perceber, ao julgar comportamentos, antecipar opiniões sobre pessoas negras ou simplesmente ignorá-las.

Cresci ouvindo piadinhas de “preto”, mas confesso que elas nunca me abalaram. Quando era chamado pelos coleguinhas de “chupim”, “saci de duas pernas”, “rolo de fumo”, simplesmente não reagia. Fugia das provocações estudando e praticando a leitura. Cheguei ao absurdo de ouvir que “negro não tem alma”. Muitas piadas eram feitas sob o olhar silencioso das professoras brancas da época — sem generalizar, claro.

E assim cresci sem me importar com a pequenez das pessoas que deliravam em gargalhadas fazendo piadinhas. Algumas tentavam ser mais cordiais e só pioravam as coisas: “Ele é negro, mas é muito inteligente”. Cansei de ouvir também que eu era “negro, mas de alma branca”.

E isso persiste até hoje. A elite branca, de olhos azuis, verdes ou da cor que seja, ainda torce o nariz para a ascensão da negritude. Certa vez, estava com um colega de trabalho em uma associação de classe que reúne os maiores PIBs de Cascavel. Um grande empresário da cidade perguntou ao meu colega quem era o seu “chefe” direto. Percebi o ar de desconfiança e negação quando ele apontou para mim, dizendo que era eu. Depois, não sei se por remorso, o empresário trocou algumas palavras comigo antes de sair.

Há alguns anos, eu estava em Toledo, na casa da minha irmã — que já faleceu. Era um domingo, e acontecia um churrasco que reunia várias pessoas, muitas das quais eu nem conhecia. Logo após o almoço, me despedi, e um senhor bem simpático disse que era cedo e que eu deveria aproveitar o domingo. Respondi que ainda iria trabalhar naquela tarde. Ele me perguntou onde eu trabalhava, e eu disse que era em um jornal da cidade. Foi então que percebi o quanto as pessoas são racistas, até mesmo sem querer. O homem simpático começou a perguntar e tentar adivinhar minha função: “O que você faz lá, é entregador?”, questionou, como se entregar jornal fosse a única tarefa que um negro poderia exercer em uma empresa de comunicação. Respondi que eu era o editor-chefe, e ele me olhou com expressão de espanto.

O racismo faz parte do dia a dia, e não falar sobre ele só estimula casos como os que temos visto ultimamente no Brasil e no mundo.

Precisamos não apenas de um ou dois dias para lembrar o tema, mas de 365 dias para combater o racismo. Falar sobre racismo é não permitir que um passado sombrio da nossa história caia no esquecimento e volte de forma sutil, como acontece atualmente.

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