Césio-137: o acidente que marcou Goiânia e expôs o maior desastre radiológico fora de usina no mundo
Contaminação começou com peça abandonada e deixou mortos, centenas de vítimas e toneladas de lixo radioativo
O dia 13 de setembro de 1987 entrou para a história como o início de um dos maiores desastres radiológicos do mundo fora de uma usina nuclear. Em Goiânia (GO), apenas 19 gramas de um pó azul brilhante, o Césio-137, foram suficientes para causar mortes, contaminar milhares de pessoas e gerar cerca de seis toneladas de lixo radioativo.
A tragédia começou quando dois catadores retiraram uma peça de aço de um prédio abandonado onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia. O material foi vendido a um ferro-velho, onde acabou sendo desmontado. Ao encontrar o pó brilhante no interior da cápsula, o proprietário do local, sem saber do risco, distribuiu pequenas porções entre familiares e conhecidos.
Dias depois, os primeiros sintomas começaram a surgir, como vômitos, diarreia, tonturas, queimaduras e queda de cabelo. Desconfiada, uma familiar levou o material à Vigilância Sanitária, o que levou à confirmação da contaminação radioativa por um especialista.
Quando o alerta foi emitido, dezenas de pessoas já haviam sido expostas. Entre as vítimas estava a menina Leide das Neves, de 6 anos, que teve contato direto com o material. Ela morreu em outubro daquele ano, assim como outros três contaminados diretamente pela radiação.
Ao todo, o acidente deixou quatro mortes confirmadas, cerca de 60 vítimas reconhecidas por associações e mais de 1,6 mil pessoas afetadas. A descontaminação atingiu casas, ruas e bairros inteiros, resultando em toneladas de resíduos radioativos, posteriormente armazenados em Abadia de Goiás, sob rigoroso isolamento com concreto e chumbo.
O caso também teve desdobramentos judiciais. Profissionais do instituto foram condenados por negligência, e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) foi responsabilizada pelo atendimento às vítimas.
Décadas depois, o episódio segue como um alerta sobre os riscos da negligência com materiais radioativos e volta ao debate público com a série “Emergência Radioativa”, que resgata os detalhes e impactos da tragédia.
Com informações do jornal O Globo