Companhias aéreas devem retomar voos para a Venezuela? Entenda

Depois de suspenderem rotas por motivos de segurança, grandes companhias tiveram licenças revogadas por Caracas; especialistas explicam impacto para passageiros e por que empresas resistem a voltar a operar no país.
A Venezuela revogou, nesta quinta-feira (27), a licença de seis grandes companhias aéreas internacionais para operar no país, após elas suspenderem seus voos em razão de um alerta de segurança emitido pelos Estados Unidos.
A medida afeta empresas como Gol, Latam Colombia, Iberia, TAP, Avianca e Turkish Airlines, que interromperam as viagens para a Venezuela depois de comunicado da Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) sobre o aumento da atividade militar na região e os riscos de sobrevoar o espaço aéreo venezuelano.
Antes de revogar as autorizações, as autoridades venezuelanas haviam dado um prazo de 48 horas para que as companhias retomassem os voos, sob pena de perderem a licença. A pressão, no entanto, não surtiu efeito, e nenhuma das empresas recuou da decisão de manter as rotas suspensas.
Venezuela fala em “terrorismo de Estado”
Em nota, a autoridade de aviação da Venezuela acusou as companhias aéreas de se alinharem “às ações de terrorismo de Estado promovidas pelos Estados Unidos” ao suspender, de forma “unilateral”, os voos comerciais.
Do outro lado, as empresas sustentam que a decisão está ligada exclusivamente à segurança de passageiros, tripulantes e aeronaves, com base no alerta da FAA, que citou “agravamento da situação de segurança e aumento da atividade militar” na região.
Os Estados Unidos têm reforçado a presença militar no Caribe, com deslocamento de um grande porta-aviões, outros navios de guerra e caças F-35, sob a justificativa de combate ao narcotráfico.
“Procedimento padrão” em áreas de risco
O especialista em segurança de voo Roberto Peterka explica que o procedimento adotado pelas companhias é comum em áreas de conflito ou em cenário de risco elevado.
Segundo ele, decisões como a suspensão de voos também ocorrem em situações como conflitos armados ou erupções vulcânicas, quando há ameaça concreta às rotas aéreas.
“É prática normal as empresas adotarem medidas de segurança para a proteção de seus passageiros, tripulantes e as próprias aeronaves”, afirma.
Peterka relembra o caso do voo J2-8243, da Azerbaijan Airlines, que ia de Baku para Grozny e caiu no Cazaquistão, em 25 de dezembro do ano passado, após desviar de uma área de risco no sul da Rússia. Pelo menos 38 pessoas morreram. O presidente russo, Vladimir Putin, admitiu que dois mísseis russos detonaram ao lado do avião após a entrada de drones ucranianos no espaço aéreo russo e chegou a pedir desculpas ao Azerbaijão.
Impacto na aviação e no bolso do passageiro
Especialistas avaliam que, em termos de fluxo global, a suspensão dos voos na Venezuela não representa grande impacto para a aviação comercial.
O piloto e assessor em segurança de voo Comandante Durval Fantozzi Filho ressalta que o país não concentra um volume expressivo de viagens:
“A Venezuela não representa um número significativo de voos em termos comerciais”, explica.
Por outro lado, ele alerta para possíveis efeitos indiretos em algumas rotas internacionais:
“As aeronaves que eventualmente voavam sobre o espaço aéreo da Venezuela para cruzar outros continentes vão ter que desviar, o que aumenta o tempo de voo e o consumo de combustível. Isso pode gerar algum aumento no preço de passagens, mas o impacto econômico não deve ser significativo”, diz.
Companhias mantêm decisão e países defendem suspensão
Mesmo após a revogação das licenças, as companhias aéreas afetadas mantiveram a decisão de não operar temporariamente no espaço aéreo venezuelano.
O ministro das Relações Exteriores de Portugal, por exemplo, defendeu a escolha da estatal TAP Air Portugal de suspender os voos e classificou qualquer medida diferente como “irresponsável”.
“O que nós temos que fazer é, através da nossa embaixada, sensibilizar as autoridades venezuelanas de que esta medida é desproporcional, de que não temos nenhuma intenção de cancelar nossas rotas para a Venezuela e que só fizemos isso por uma questão de segurança”, afirmou Paulo Rangel.
Na avaliação de Roberto Peterka, a Venezuela tem poder limitado sobre decisões de segurança tomadas por empresas e autoridades de outros países:
“A Venezuela não tem ingerência a esse respeito nos voos civis. A única medida que pode tomar é cancelar a autorização dessas empresas no seu território. Com o passar do tempo e a normalização da situação, o país terá que conceder novas licenças”, conclui.