Uau! Ele me chamou pelo nome

Minhas caminhadas matinais aos domingos sempre me surpreendem com certas situações um tanto quanto inusitadas. E foi nesta manhã, dia 29 de abril de 2018, que eu fiquei sem entender o carinho de uma pessoa e nem tive coragem de perguntar de onde ela me conhecia.
Retornava da caminhada pela Avenida Brasil quando um morador de rua que estava sentado em um banco do canteiro central acenou e gritou para mim.
— Ô seu Luiz, tá tudo bem com o senhor?
Olhei para o rapaz e decidi ir até ele. Conversei como se eu soubesse com quem estava falando. Aproximei-me e estendi a mão para cumprimentá-lo. Ele rapidamente jogou o cigarro na calçada e me deu um forte aperto de mão.
— Como é que você está? — perguntei.
— Estou bem, seu Luiz — disse ele, empurrando um velho colchão enrolado que usa para dormir nas ruas da cidade.
O homem loiro, de cabelos compridos e tatuagem no braço direito, parecia muito feliz. Tentei lembrar de onde poderia conhecê-lo, já que ele me chamou pelo nome e ficou à vontade para falar comigo. Não tinha a menor ideia e também não tive coragem de perguntar. Imagino que talvez seja algum antigo vizinho, mas não posso afirmar isso.
De repente, o homem alegre, que aparentava ter aproximadamente 40 anos, puxou uma embalagem plástica transparente que possuía um zíper branco e me mostrou várias roupas seminovas.
— Olha, seu Luiz, encontrei jogadas em uma lixeira. Estão novas, dobradinhas, é tudo roupa de mulher. O senhor, que tem filhas, poderia levar. Não vou cobrar. É um presente.
Fiquei mais surpreso quando ele falou das minhas filhas. Percebi que ele realmente me conhece, mas fiquei constrangido em perguntar quem era ele. Entre as roupas, ele me mostrou uma jaqueta e disse que iria ficar com ela para se proteger do frio, mesmo sendo uma jaqueta feminina. A roupa era do São Paulo Futebol Clube.
— É um excelente time — comentei com ele.
— Mas se eu virar do avesso é a Seleção Brasileira — retrucou.
De fato, era possível usá-la dos dois lados. Na parte verde e amarela, o tecido da manga estava rasgado.
— Jogaram só por causa desse rasgão, mas eu mesmo costuro. Tenho uma agulha aqui.
Despedi-me do rapaz dizendo que não conseguiria levar as roupas por estar fazendo caminhada, mas ele fez outra sugestão:
— Seu carro está longe? Eu vou ficar aqui o dia inteiro. Pega o carro e vem buscar.
— Não vou prometer, tenho que buscar minhas filhas para ir ao churrasco da firma — disse eu.
— Pode vir depois, vou ficar aqui. E aproveita e traz uma marmita, diz que você vai levar para seu cachorrinho — brincou ele.
Voltei para casa feliz em ser reconhecido pelo morador de rua, mas com remorso por não saber quem ele era e nem ter coragem de perguntar. Meu remorso aumentou no meio da tarde, quando lembrei que deveria ter levado um prato de comida, mas já era tarde demais. Talvez eu o encontre novamente e prolongue o papo para descobrir quem ele é.