Falhas em tarjas expõem vítimas em arquivos de Jeffrey Epstein divulgados nos EUA
Imagens e vídeos com nudez e dados identificáveis seguem online dias após alerta às autoridades; advogados apontam “danos irreparáveis” às vítimas

Fotos e vídeos sem tarjas pretas, incluindo cenas de nudez, divulgados nos arquivos do bilionário condenado por crimes sexuais Jeffrey Epstein (1953–2019), continuam disponíveis na internet há dias, apesar de autoridades dos Estados Unidos terem sido alertadas para falhas no processo de ocultação de informações sensíveis. Advogados afirmam que o episódio causou “danos irreparáveis” às vítimas.
Os arquivos analisados pela BBC Verify estão entre milhares de documentos que, segundo representantes legais, contêm informações capazes de identificar dezenas de vítimas de Epstein. Grupos de vítimas se manifestaram publicamente pela primeira vez no fim de semana, após o jornal americano New York Times informar que quase 40 imagens desse tipo haviam sido publicadas na sexta-feira (30/1) como parte do acervo.
Na terça-feira (3/2), um juiz de Nova York declarou que o Departamento de Justiça dos EUA (DoJ) concordou em corrigir rapidamente o problema, depois que vítimas pediram a retirada temporária do site do ar até que nomes e imagens fossem devidamente ocultados. O DoJ removeu milhares de documentos de seu portal, alegando que os arquivos haviam sido publicados por “erro técnico ou humano”, e informou que segue analisando novos pedidos e verificando se há outros documentos que exijam ocultação adicional.
Apesar disso, a BBC Verify constatou de forma independente que diversas imagens de pessoas identificáveis ainda estavam online na quarta-feira (4/2), mesmo após o governo dos EUA afirmar, no dia anterior, que estava lidando com as falhas nas ocultações. A BBC procurou o Departamento de Justiça para comentar o caso e forneceu os nomes dos arquivos sem tarjas, mas não obteve resposta até o momento.
“O dano causado é irreparável”, afirmou em nota Brad Edwards, advogado que representa vítimas de Epstein. “Estou arrasada pelas garotas cujas informações foram divulgadas”, disse à BBC Ashley Rubright, sobrevivente dos abusos cometidos por Epstein. “Isso é uma violação enorme de um dos momentos mais horríveis da vida delas.”
Quatro das imagens identificadas pela BBC Verify mostravam jovens parcialmente vestidas, com rostos e corpos sem qualquer ocultação. O material foi localizado em uma busca ampla entre milhões de arquivos divulgados como evidência das relações de Epstein com figuras públicas.
Em alguns documentos, partes de fotos de outras pessoas foram ocultadas, mas permaneceram expostas em outros. Um dos arquivos reunia duas versões da mesma imagem: em uma, o rosto estava coberto por um quadrado preto; na outra, aparecia totalmente visível. Outro vídeo identificava uma pessoa levantando a camisa e exibindo um dos seios para a câmera.
Autoridades do Departamento de Justiça haviam sido encarregadas de ocultar todas as fotos sexualmente explícitas ou quaisquer informações que pudessem identificar vítimas antes da divulgação do mais recente lote de arquivos, prevista inicialmente para o período do Natal passado. Antes do prazo estabelecido pelo Congresso dos EUA, o vice-procurador-geral Todd Blanche disse que os documentos não seriam publicados no calendário previsto devido ao trabalho adicional necessário para resguardar a identidade das vítimas.
“Estamos examinando cada documento que será tornado público, para garantir que todas as vítimas — seus nomes, identidades e histórias, na medida em que precisam ser protegidas — estejam plenamente resguardadas”, afirmou Blanche à época.
A BBC Verify também verificou separadamente que a identidade de várias pessoas foi revelada em informações médicas e declarações legais publicadas nos arquivos. Em dois vídeos de exames de ultrassom fetal, um nome aparecia integralmente, assim como horário, data, o que parece ser o local dos exames e a idade gestacional do feto. Outro documento continha uma gravação de Epstein sendo interrogado, na qual um advogado mencionava o nome de ao menos uma vítima.
Diante dos episódios, advogados das vítimas criticaram duramente o Departamento de Justiça por não ter protegido adequadamente centenas de mulheres identificadas nos arquivos. “Estamos recebendo ligações constantes de vítimas porque seus nomes — apesar de nunca terem se exposto e serem completamente desconhecidas do público — acabaram de ser divulgados para consumo público”, afirmou Brad Edwards no domingo (1/2). “São literalmente milhares de erros.”
Com informações da BBC