Cenipa aponta falhas da Voepass, dos pilotos e da Anac em queda de avião que matou 62 pessoas
Relatório final conclui que aeronave não deveria ter decolado com previsão de chuva e revela falhas operacionais, de manutenção e de fiscalização

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) apresentou nesta quinta-feira (23) o relatório final sobre a queda do avião da Voepass, ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP). O acidente, que matou 62 pessoas, foi o maior desastre aéreo no Brasil desde 2007.
Segundo a investigação, houve uma combinação de falhas envolvendo a companhia aérea, a atuação dos pilotos e a fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), além de problemas técnicos na aeronave.
O relatório concluiu que o avião não deveria ter decolado de Cascavel com destino a Guarulhos, pois apresentava uma falha no sistema do limpador de para-brisa. Pelas regras operacionais da empresa, a aeronave não poderia ser despachada caso houvesse previsão de chuva uma hora antes ou uma hora depois da decolagem, condição que existia naquele dia.
A investigação também revelou que o avião permaneceu entre oito e dez minutos em uma área com condições severas de formação de gelo. Na véspera do acidente, a aeronave já havia apresentado falhas no sistema de degelo das asas, mas o problema não foi registrado no diário de bordo pela tripulação responsável, impedindo que a manutenção realizasse os reparos necessários.
Outro ponto destacado pelo Cenipa foi a atuação dos pilotos. De acordo com o relatório, eles conversavam sobre assuntos pessoais durante parte significativa do voo e deixaram de acionar o sistema de degelo, mesmo após alertas emitidos pela aeronave indicando risco de acúmulo de gelo nas asas.
O investigador responsável pelo caso, tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, afirmou que a comissão identificou uma “cultura de normalização de desvios” dentro da Voepass, marcada pela informalidade no registro de panes e falhas por pilotos e mecânicos.
O relatório também faz críticas à atuação da Anac. Segundo o Cenipa, auditorias e inspeções realizadas antes do acidente já haviam identificado diversas irregularidades relacionadas à manutenção das aeronaves, ao controle de componentes e ao registro de falhas. No entanto, essas constatações não resultaram em medidas eficazes para reduzir os riscos e impedir a continuidade das operações da companhia.
Em nota, a Voepass informou que irá se manifestar após analisar a íntegra do relatório. Já a Anac afirmou que avaliará as conclusões do Cenipa dentro do prazo de até 120 dias.