Da solda na tornozeleira à prisão definitiva: a semana decisiva de Bolsonaro

Em apenas sete dias, o ex-presidente deixou a prisão domiciliar, teve a prisão preventiva decretada por risco de fuga e terminou com a condenação por tentativa de golpe de Estado transitada em julgado.
Neste sábado (29), completa-se uma semana desde que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi preso na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Em poucos dias, ele passou da violação da tornozeleira eletrônica à prisão preventiva e, em seguida, à prisão definitiva, após o Supremo Tribunal Federal (STF) encerrar de vez a ação penal da trama golpista.
Bolsonaro estava em prisão domiciliar desde 4 de agosto, por descumprir medidas cautelares impostas pela Justiça. Em 11 de setembro, o STF o condenou por tentar impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após as eleições de 2022.
Segundo a Polícia Federal (PF), o ex-presidente liderou a articulação para barrar a posse do presidente eleito e coordenou etapas centrais do plano. Ele recebeu a maior pena entre todos os réus: 27 anos e 3 meses de prisão.
Na última semana, ele foi preso preventivamente e, logo depois, teve a prisão em definitivo decretada.
Prisão preventiva após violar a tornozeleira
No sábado (22), o ministro Alexandre de Moraes, do STF, decretou a prisão preventiva de Jair Bolsonaro, apontando risco concreto de fuga.
Na véspera, o ex-presidente havia violado a tornozeleira eletrônica, fato decisivo para a ordem de prisão. Moraes também citou a vigília convocada na portaria do condomínio pelo filho Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a proximidade da casa com a área de embaixadas em Brasília como fatores que reforçavam o risco.
Questionado pela PF sobre a tornozeleira danificada, Bolsonaro alegou que usou um ferro de solda por “curiosidade”.
Ainda no sábado, agentes da Polícia Federal foram ao condomínio no Jardim Botânico, área nobre de Brasília, prender o ex-presidente e levá-lo à Superintendência da PF, onde permanece.
A sala onde ele está detido tem televisão, frigobar, ar-condicionado e banheiro particular.
“Alucinação”, remédios e visita de Michelle
No domingo (23), Bolsonaro passou por audiência de custódia por videoconferência. Ao explicar a violação da tornozeleira, disse ter tido uma “certa paranoia” e uma “alucinação” de que havia uma escuta instalada no equipamento.
Ele atribuiu o episódio à combinação de dois medicamentos que não deveriam ser usados juntos: Pregabalina e Sertralina, receitados por médicos diferentes.
Na parte da tarde, ele recebeu a visita da esposa, Michelle Bolsonaro (PL), que deixou o local por volta das 17h, sem falar com a imprensa. Do lado de fora da PF, o clima foi de tensão, com confrontos verbais entre apoiadores e opositores.
Trânsito em julgado e pena em regime fechado
Na terça-feira (25), o STF concluiu o julgamento da trama golpista e declarou o trânsito em julgado da condenação de Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão — ou seja, não cabem mais recursos que suspendam a decisão.
O Supremo determinou que, inicialmente, a pena seja cumprida na própria Superintendência da PF, na mesma sala onde ele já estava preso preventivamente.
A defesa pretendia apresentar embargos infringentes até o fim da semana, mas Moraes decretou o trânsito em julgado ao entender que esse tipo de recurso, no caso, seria apenas protelatório. Pela jurisprudência do STF, embargos infringentes só cabem quando ao menos dois ministros votam pela absolvição — o que não ocorreu, já que apenas Luiz Fux votou nesse sentido.
Mesmo assim, os advogados do ex-presidente acabaram apresentando os embargos infringentes ao STF na sexta-feira (28).
Pedido por anistia e recado ao Congresso
Já na condição de condenado em definitivo, Bolsonaro recebeu, no dia 25, a visita dos filhos Flávio (PL-RJ) e Carlos Bolsonaro (PL-RJ).
Na saída, Flávio contou à imprensa que o pai pediu que ele e o irmão pressionassem o Congresso para pautar o projeto de anistia:
“Pediu que a gente insistisse com o presidente Motta e Alcolumbre, e que nós pedíssemos pra eles a colocação em pauta do projeto de anistia. É um pedido direto dele aos presidentes Hugo Motta e Davi Alcolumbre”, disse o senador.
Audiência de custódia do núcleo crucial e crise de soluços
No dia 26, o chamado núcleo 1 da trama golpista — considerado o “núcleo crucial” — passou por audiência de custódia. O STF manteve a prisão e as penas de todos os condenados: além de Bolsonaro, Anderson Torres, o almirante Almir Garnier, e os generais Paulo Sérgio Nogueira, Augusto Heleno e Braga Netto.
Na quinta-feira (27), Bolsonaro voltou a receber familiares, desta vez o filho mais novo, o vereador Jair Renan (PL-SC), e novamente a esposa Michelle.
O ex-presidente precisou ser medicado após uma crise de soluços. Segundo Jair Renan, o quadro se agravou:
“A crise de soluço voltou mais acentuada, ainda mais forte, e ele já havia me relatado que não conseguiu dormir durante a noite. Os episódios de refluxo que ocorreram ontem continuam persistindo ao longo do dia de hoje”, afirmou o vereador.
No mesmo dia, o PL anunciou a suspensão do salário e das atividades partidárias de Bolsonaro, em razão da suspensão de seus direitos políticos após a condenação. Até então, ele recebia cerca de R$ 33,8 mil líquidos como presidente de honra do partido.