Evento em escola cívico-militar expõe fuzis a estudantes no Paraná e gera críticas

Imagens mostram alunos menores de 18 anos diante de fuzis e outros armamentos da PMPR, cantando verso com apologia à violência; sindicato aciona MP, Defensoria e órgãos de controle, enquanto programa cívico-militar segue questionado no STF.
Um evento realizado no Colégio Estadual Vinicius de Moraes, em Colombo, na região metropolitana de Curitiba (PR), gerou forte repercussão e críticas de entidades ligadas à educação e nas redes sociais. Imagens mostram estudantes, todos menores de 18 anos, diante de uma mesa com fuzis e outros armamentos da Polícia Militar do Paraná (PMPR), durante uma atividade promovida dentro da escola cívico-militar.
O encontro aconteceu na última quarta-feira (3/12), durante visita de representantes da Secretaria da Segurança Pública (Sesp) ao colégio. A unidade faz parte do modelo de gestão cívico-militar, adotado em mais de 300 escolas da rede estadual paranaense.
Exposição de armas e canto com apologia à violência
Nos vídeos que circularam nas redes, é possível ver alunos aglomerados em frente a uma mesa montada no ginásio da escola. Nela, estão expostos pelo menos cinco fuzis, uma pistola e outros equipamentos usados pelo batalhão de Rondas Ostensivas de Natureza Especial, unidade de elite da PMPR.
As imagens mostram ainda que os estudantes eram acompanhados por um monitor da escola enquanto cantavam versos como:
“Homem de preto, qual é sua missão? Entrar na favela e deixar corpo no chão.”
Nas redes sociais do secretário de Segurança Pública, a participação no evento foi divulgada apenas nos stories, sem detalhes sobre o objetivo pedagógico da atividade.
Depois da repercussão, o secretário de Educação do Paraná, Roni Miranda, afirmou que o colégio passará por acompanhamento voltado ao combate à violência e à discriminação dentro do ambiente escolar.
Governo fala em “ação institucional”
Em nota, a Sesp informou que a exposição ocorreu dentro de uma ação institucional no colégio. Segundo a secretaria, equipes do Proerd, da Patrulha Escolar, Patrulha Maria da Penha, Corpo de Bombeiros e de unidades especializadas da PMPR apresentaram aos estudantes aspectos do trabalho diário das forças de segurança.
O órgão afirmou ainda que a exposição de armamentos é “um tipo de ação tradicional que acontece em escolas, praças, feiras e eventos comunitários” e ressaltou que os equipamentos estavam em área supervisionada, sem manuseio pelos alunos.
O evento ocorreu poucos dias depois da circulação de outro vídeo, desta vez no Colégio Estadual Cívico-Militar João Turin, em Curitiba, que mostra estudantes marchando e cantando uma música com apologia à violência.
Sindicato aciona MP, Defensoria e Controladoria
O APP-Sindicato, que representa professores e funcionários de escolas do Paraná, informou que o caso foi denunciado ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à Controladoria-Geral do Estado.
Para a presidenta do sindicato, Walkiria Mazeto, situações como essa mostram os problemas do modelo cívico-militar:
“A escola tem como papel central a humanização, a construção do respeito à diversidade e a todas as pessoas. O modelo cívico-militar vai na contramão deste grande objetivo. Esses vídeos, que nós tivemos acesso e denunciamos, são apenas algumas das provas e das muitas denúncias que temos feito sobre este modelo, seja sobre assédio, violência, assim como a incitação à violência e ao racismo”, afirmou.
Programa cívico-militar é questionado no STF
Desde 2021, o programa de colégios cívico-militares do Paraná é alvo de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF).
A ação foi apresentada por PT, PSol e PCdoB, que pedem a derrubada da lei que instituiu o programa e do dispositivo que retirou dessas escolas a obrigação de consultar a comunidade escolar para a escolha de diretores.
Em março de 2024, o relator do caso, ministro Dias Toffoli, determinou que o processo fosse levado ao Plenário para julgamento definitivo. Até o momento, não há data marcada para análise.