OPINIÃO

“Nasceu o Pelezinho”

Luiz Carlos da Cruz, jornalista

A data de 16 de novembro de 1971 caiu em uma terça-feira. Foi a primeira vez que Dona Bera, minha mãe, adentrou um hospital. Seus quatro primeiros filhos – três mulheres e um homem – nasceram em casa, assistidos por parteiras, acredito que todos sob os cuidados de minha avó paterna, Dona Waldomira Rosa da Veiga.

Ainda sem saber se viria um menino ou uma menina, Dona Bera chegou ao Hospital São Lucas, em Laranjeiras do Sul, no dia 15 de novembro, para dar à luz seu primeiro filho em uma maternidade. Ela estava apreensiva, temendo que o parto não fosse normal e pudesse resultar em uma cesariana.

Sua ansiedade aumentou quando um frasco de soro foi inserido em seu braço. A enfermeira Francisca, muito brincalhona, tentava, sem sucesso, acalmá-la:

Fica tranquila, senão vai acabar na sala de cirurgia.
E naquele 16 de novembro, às 13 horas, nasceu pelas mãos dos médicos Reginaldo e Felipe o menino que seria chamado de Luiz Carlos da Cruz. Minha mãe ouviu o choro do bebê e ouviu do médico:

Nasceu o Pelezinho!
Falando em Pelé, naquele mesmo ano, quatro meses antes do nascimento do “Pelezinho”, que nunca teve intimidade com a bola, o rei do futebol se despediu da Seleção Brasileira em um jogo contra a Iugoslávia, terminando empatado em 2 a 2.

Era o Dia Internacional da Tolerância, talvez tenha influenciado um pouco na minha personalidade. Sou tolerante, embora nem sempre concorde com as coisas toleradas.

O bebê nasceu e logo se tornou a atração no hospital, para desespero de Dona Bera. A enfermeira Francisca teve a péssima ideia de entregar o Luizinho para dois policiais que escoltavam um presidiário internado. Claro que minha mãe temeu que o bebê desaparecesse, mas pouco depois ele estava de volta aos braços dela, como se fosse o Nicolas Cagezinho.

E cá estamos, mais de meio século depois! Mas o que são 52 anos?
Muitos consideram o início do declínio e começam a se preocupar. Afinal, a juventude já se foi há muito tempo. As células de gordura persistem em criar uma saliência abdominal que chamamos de barriga. Tudo bem, dizem por aí que “um homem sem barriga é um homem sem história”, então vamos falar de história, do passado e do futuro – bem, o futuro não se enquadra no conceito de história.

É verdade que tenho muito mais passado do que futuro, mas por que me preocupar com isso? Como aquela canção diz: “Why worry?”

O brilho nos olhos precisa ser o mesmo, o sorriso também, mesmo que as covinhas que trazem um certo charme estejam dando lugar às rugas. Ah, são os sinais do tempo!

Ultrapassei os 50 anos e estou muito feliz. Arriscaria dizer que vivo o momento mais feliz da minha vida. E o melhor de tudo… Não há uma razão específica para tanta felicidade, exceto o abraço acolhedor da própria felicidade. Carlos Drummond de Andrade estava certo: “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”

E foi assim, no ano em que John Lennon lançou o icônico álbum “Imagine”, a Apollo 14 foi lançada pela NASA, a Intel introduziu o primeiro microprocessador, meus pais lançaram Luiz Carlos. Viva 1971!

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