Opinião

Votar em branco também é uma escolha: não sou obrigado a escolher entre dois candidatos

Não me identifico com Lula nem com Flávio Bolsonaro. Meu voto não é uma obrigação de escolher o que considero menos ruim, mas uma decisão que precisa estar de acordo com minha consciência

Por · 19/10/2026 16:58
Por Luiz Carlos da Cruz
Por Luiz Carlos da Cruz

*Por Luiz Carlos da Cruz

Estamos às vésperas do segundo turno das eleições e, diante das opções colocadas, tomei uma decisão: não votar em nenhum dos dois candidatos. Nem Lula nem Flávio Bolsonaro contam com minha simpatia ou representam aquilo que espero de alguém que pretende governar o Brasil.

O histórico de controvérsias, denúncias e questionamentos envolvendo os dois nomes reforça minha falta de identificação com suas candidaturas. No caso de Lula, a trajetória política foi marcada por investigações e processos relacionados à Operação Lava Jato, incluindo condenações que posteriormente foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, por questões de competência e imparcialidade, sem que isso represente uma declaração de inocência sobre todos os fatos investigados. Também há controvérsias políticas e administrativas que continuam alimentando o debate público sobre seus governos e aliados. Sem falar que seu filho e irmão estão envolvidos em escândalos, como o roubo dos aposentados do INSS, que atingem diretamente o governo. 

Flávio Bolsonaro, por sua vez, foi alvo de investigações relacionadas às movimentações financeiras de seu ex-assessor Fabrício Queiroz e ao caso conhecido como “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O caso teve desdobramentos judiciais e controvérsias sobre a validade das provas e os procedimentos adotados. E aí vem as festinhas e a dinheirama de Vorcaro para completar o pacote. Flávio nega irregularidades, e denúncias ou investigações não podem ser tratadas automaticamente como condenações definitivas.

Não se trata de afirmar que os dois são iguais em tudo, nem de transformar suspeitas em sentenças. Trata-se de reconhecer que, diante do conjunto de controvérsias que envolve suas trajetórias, não me sinto convencido de que qualquer um deles mereça meu voto. A democracia permite o debate, a cobrança e, também, a recusa em aderir a uma candidatura.

Sempre defendi que não basta procurar um candidato que se apresente como honesto. É preciso buscar integridade. Para mim, honestidade e integridade não são exatamente a mesma coisa. A honestidade diz respeito, entre outras coisas, a não enganar ou se apropriar do que não lhe pertence. A integridade envolve coerência entre discurso e prática, respeito aos princípios e responsabilidade mesmo quando ninguém está olhando. Quero mais do que promessas ou discursos bem ensaiados. Quero alguém cuja trajetória inspire confiança.

É por isso que discordo da ideia de que votar em branco seja necessariamente lavar as mãos ou permitir que os outros decidam por mim. Meu voto é uma escolha pessoal, e a liberdade de votar também inclui a possibilidade de não endossar nenhum dos nomes disponíveis. Não estou dizendo que minha decisão impedirá a eleição de um ou de outro. Sei perfeitamente que o resultado será definido pelos votos válidos. Estou dizendo que não quero emprestar meu voto a uma candidatura na qual não acredito.

Também não estou desistindo do Brasil. Continuo acreditando na capacidade deste país, na força de seu povo e na possibilidade de construirmos um futuro melhor. O que não consigo enxergar, neste momento, é a candidatura que me faça acreditar que esse futuro estará mais próximo com a escolha entre os dois nomes apresentados.

Não me considero uma pessoa perfeita. Tenho falhas, cometo erros e não reivindico superioridade moral sobre ninguém. Mas acredito que o Brasil, com sua dimensão, suas riquezas, sua diversidade e seu povo trabalhador, merece uma liderança à altura de sua grandeza. Merece mais do que a polarização permanente, a disputa de torcidas e a ideia de que o eleitor precisa escolher um lado mesmo quando não confia em nenhum deles.

Independentemente de quem vencer, torcerei para que faça um governo justo, respeite as instituições, cuide da população e trabalhe pelo desenvolvimento do país. O Brasil está acima de qualquer partido, liderança ou projeto pessoal de poder.

Se alguém considerar meu posicionamento ignorância, está no seu direito. Vivemos em uma democracia, e cada cidadão pode avaliar minhas razões como quiser. Nesse caso, reivindico até mesmo a condição de ignorante para não votar em ninguém. Prefiro assumir conscientemente essa escolha a fingir convicção apenas para atender à expectativa dos outros.

Neste segundo turno, vou votar em branco.Não por indiferença ao Brasil, mas porque me recuso a confundir participação democrática com obrigação de escolher entre candidatos nos quais não confio. Meu voto é meu, minha consciência também, e não preciso transformar a rejeição a um candidato em apoio automático ao outro.

 

*Luiz Carlos da Cruz é jornalista

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