Oração ao “deus Bilé”
Por Luiz Carlos da Cruz
O ano era 1975 ou 1976. Eu tinha quatro ou cinco anos, mas, apesar da pouca idade, ainda me lembro de muitas coisas daquela época. Morávamos em uma velha casa de madeira, com chão batido, em uma localidade chamada Jacutinga, no interior do então distrito de Canta Galo — hoje município de Cantagalo. Ou seja, morávamos no interior do interior.
Minha família já era evangélica naquela época, e meu pai, seu Antônio, costumava fazer algumas orações em casa, uma espécie de culto doméstico. Eu, claro, queria participar. Sem saber como orar, para desespero do seu Antônio e da dona Bera, minha mãe, no momento da oração eu invocava um deus desconhecido. Bastava começar a celebração para eu soltar um sonoro: “Óóóóóó, Bilééééééé!”
Meu pai, obviamente, me repreendia. Eu ficava em silêncio até a oração seguinte, quando voltava a clamar pelo “Bilé”. É bem verdade que, às vezes, eu esquecia da minha estranha devoção. Mas então entravam em cena minhas irmãs — Lourdes, Ana e Eva — e meu irmão João. Sempre que me viam quieto durante a oração, cochichavam ao meu ouvido: “O Bilé”. Imediatamente, eu retomava a invocação em alto e bom som: “Óóóóóó, Bilééééééé!”
Certa vez, peguei um pequeno balde e, como fazia quase todos os dias, fui buscar água em uma mina próxima de casa. Ao longe, avistei um pedaço de madeira podre. Quanto mais eu olhava fixamente para ele, mais tinha a impressão de que um velho me observava. Apavorado, joguei o balde de água no chão e voltei para casa aos prantos. Era apenas fruto da minha imaginação, mas aquele episódio acabou colocando fim à minha devoção ao “deus Bilé”. Meu pai não perdeu a oportunidade e disse que, de tanto eu orar para o Bilé, ele finalmente havia aparecido. Nunca mais invoquei aquele deus estranho.
De onde surgiu o “deus Bilé” na mente do pequeno Luiz continua sendo um mistério. A hipótese mais provável está em algo bem típico do Paraná: o pinhão. Costumávamos, não sei por quê, chamar de bilé o pinhão assado na brasa ou na chapa, depois descascado e amassado com um martelo. Talvez esteja aí a explicação. Quem sabe o Bilé não seja, afinal, um deus perdido da mitologia paranaense?
