Pesquisadora da Unicamp criou tecnologia que inspirou Grey’s Anatomy

MacSpec Pen System, a “caneta” que identifica tecido tumoral em até 90 segundos, foi desenvolvida por Lívia Eberlin e inicia testes no Brasil com apoio do Hospital Albert Einstein
A “caneta que detecta câncer” que aparece na 14ª temporada de Grey’s Anatomy tem assinatura brasileira. A tecnologia, chamada MacSpec Pen System, foi criada pela cientista Lívia Schiavinato Eberlin, formada em Química pela Unicamp, e está sendo testada pela primeira vez no país. Os estudos são conduzidos por pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, em parceria com a startup MS Pen Technologies, fundada por Lívia, e a empresa Thermo Fisher Scientific, responsável pelo espectrômetro de massas de alta resolução ao qual o dispositivo é acoplado.
O protocolo de pesquisa terá duração estimada de 24 meses e incluirá 60 pacientes oncológicos, sendo 30 com câncer de pulmão e 30 com câncer de tireoide. Os tumores foram selecionados pela acessibilidade cirúrgica, pela complexidade do diagnóstico intraoperatório e pela maturidade do algoritmo de identificação. O objetivo é avaliar desempenho, segurança e aplicabilidade clínica do sistema em ambiente hospitalar brasileiro.

A MacSpec Pen System é um dispositivo portátil em formato de caneta que “lê” a assinatura molecular dos tecidos e indica se são cancerígenos ou saudáveis. Durante a cirurgia, o cirurgião encosta a ponta do instrumento no tecido-alvo. O dispositivo libera uma gota de água estéril para coletar moléculas da superfície e, em seguida, aspira o material que é imediatamente analisado no espectrômetro de massas. Com apoio de inteligência artificial, o perfil molecular é comparado a um banco de dados e o resultado é entregue em até 90 segundos. A tecnologia já foi aplicada em procedimentos envolvendo tumores de mama, cérebro, ovário e próstata, e agora será ajustada à realidade brasileira com foco em pulmão e tireoide.
A ideia central é ampliar a assertividade das ressecções oncológicas. Em muitos casos, o limite entre tecido tumoral e tecido saudável não é evidente a olho nu, o que pode levar tanto à retirada insuficiente quanto à retirada excessiva de tecido. Ao fornecer uma leitura rápida no intraoperatório, a “caneta” busca auxiliar decisões cirúrgicas e reduzir a necessidade de reoperações.
Lívia Eberlin graduou-se pela Unicamp em 2007 e mudou-se para os Estados Unidos em 2008, onde lidera um laboratório de pesquisa na Universidade do Texas, em Austin. Reconhecida internacionalmente, foi uma das contempladas em 2018 com a bolsa da Fundação MacArthur, conhecida como “bolsa dos gênios”, concedida a profissionais de destaque e criatividade em suas áreas.

A presença da tecnologia em Grey’s Anatomy veio após contato da produção do seriado. Em relato nas redes sociais, Lívia contou que recebeu um e-mail inesperado durante a licença-maternidade e foi convidada para explicar o funcionamento da ferramenta a produtores e atores. Meses depois, foi avisada de que a “caneta” apareceria no episódio do dia seguinte e reuniu o grupo de pesquisa para assistir à estreia televisiva. A ferramenta voltou a ser mencionada diversas vezes ao longo da temporada, aproximando o grande público de um tema de fronteira na cirurgia oncológica.
Com informações do Portal Metrópoles