Bolsonaro e aliados “convocam” Lula de 1979 para campanha pela anistia
Ex-presidente e seus aliados resgatam imagem de Lula de 1979 para reforçar o pedido de anistia aos condenados pela invasão às sedes dos Três Poderes. O uso da foto gerou debate sobre o significado da anistia e as diferenças entre os dois contextos históricos.
Durante manifestação no último domingo (16), na praia de Copacabana, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados voltaram a defender a anistia para os presos pelos atos de 8 de janeiro de 2023. Em meio à mobilização, bolsonaristas começaram a compartilhar uma foto de 1979 do então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vestindo uma camiseta com a palavra “Anistia”. A imagem foi utilizada para estabelecer um paralelo com a anistia concedida a presos políticos da ditadura militar, provocando um intenso debate político e histórico.

A manifestação reuniu cerca de 18 mil apoiadores, segundo a Polícia Militar, e teve como principal pauta o perdão judicial aos condenados pelos ataques às sedes do STF, Congresso e Palácio do Planalto. No mesmo dia, Michelle Bolsonaro compartilhou a foto de Lula em seus stories do Instagram, sem legenda, sugerindo um paralelo entre os pedidos de anistia de diferentes épocas.
O próprio Bolsonaro também publicou a imagem no X (antigo Twitter), afirmando:
“O Supremo Tribunal do Brasil se instrui para colocar Bolsonaro em julgamento – a repressão continua, o mesmo tribunal corrupto que persegue Bolsonaro.”
Além dele, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) apareceu em um vídeo vestindo uma camiseta com a foto de Lula e mencionou nomes como Dilma Rousseff, José Dirceu, Leonel Brizola, Gilberto Gil e Caetano Veloso, todos anistiados na redemocratização, questionando por que o mesmo princípio não se aplicaria aos bolsonaristas presos.
A foto de Lula com a camiseta “Anistia” foi tirada em 1979, durante atos pela redemocratização do Brasil, quando movimentos sindicais e da sociedade civil pediam o fim da repressão política e a libertação de presos políticos perseguidos pelo regime militar. A campanha culminou na Lei da Anistia, que beneficiou tanto opositores do regime quanto agentes da repressão.
Agora, Bolsonaro e seus aliados tentam usar essa imagem para argumentar que os presos do 8 de janeiro também deveriam receber anistia. No entanto, historiadores e juristas alertam que os contextos são completamente distintos.
“A anistia de 1979 visava reparar injustiças de um regime autoritário. Já os presos do 8 de janeiro foram condenados por atacar as instituições democráticas e tentar reverter um resultado eleitoral legítimo”, explica a cientista política Débora Messenberg, da Universidade de Brasília (UnB).
Líderes petistas também reagiram à tentativa de comparar os dois momentos históricos. O deputado Zeca Dirceu (PT) criticou a iniciativa bolsonarista:
“Comparar militantes perseguidos por uma ditadura com extremistas que atacaram as instituições democráticas é uma afronta à história.”
O episódio mostra como Bolsonaro e seus aliados continuam mobilizando sua base em torno da ideia de perseguição política. O resgate da imagem de Lula, mesmo fora de contexto, é uma estratégia para reforçar a narrativa de que os presos do 8 de janeiro são vítimas de um sistema judicial parcial.
Enquanto isso, os desdobramentos jurídicos seguem avançando. O STF já condenou dezenas de envolvidos nos ataques de 8 de janeiro, com penas que chegam a 17 anos de prisão. Além disso, Bolsonaro enfrenta investigações que podem torná-lo inelegível e até levá-lo a julgamento.
A disputa pela anistia dos bolsonaristas promete seguir como um dos principais temas políticos das próximas semanas, alimentando o embate entre governo e oposição.